O efeito do trabalho voluntário na redução da gravidez na adolescência: a técnica “do good, be good” (faça o bem, seja bom)

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Diversas pesquisas apontam que ter um filho é um fator que, à primeira vista, diminui o bem-estar dos pais. Mas isso analisando o bem-estar apenas superficialmente e em curto prazo como o sentimento de prazer experienciado. Um outro componente essencial do bem-estar revelado pela psicologia positiva (área da psicologia que estuda a felicidade ou o bem-estar subjetivo) é o propósito e, analisando de forma mais aprofundada, ter e criar um filho é algo que traz um enorme sentimento de propósito para os pais – o que, consequentemente, aumenta o bem-estar, compensando na maioria das vezes a perda de prazer momentâneo experienciado. Porém, essa “compensação” é válida, em geral, para pais que têm condições (financeiras, cognitivas e emocionais) para criar um filho e ver propósito nisso, não se aplicando ao caso da gravidez na adolescência, na maioria das vezes.

A gravidez é um acontecimento especial para muitas mulheres, no entanto, na adolescência pode acarretar diversos problemas, como a maior probabilidade de abandono dos estudos pela mãe adolescente, chances maiores de ser mãe solteira, ter uma condição financeira mais precária, além dos filhos terem mais chances de serem vítimas de abuso, serem colocados em orfanatos, terem uma relação de afeto mais prejudicada com a mãe, terem menos conhecimentos gerais ao entrar no jardim de infância e até mesmo uma chance maior de irem para prisão quando adultos.

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Para evitar essa situação, já foram realizadas diversas intervenções comportamentais com boas intenções, mas que por serem baseadas no senso comum (e não no conhecimento científico) tiveram poucos resultados positivos, e às vezes, até efeitos prejudiciais. As principais intervenções foram variações na educação sexual.

Uma meta-análise sobre a efetividade de diferentes tipos de programas de prevenção à gravidez revelou que programas que discutem medidas de controle da natalidade e distribuem anticoncepcionais têm melhores resultados do que programas que pregam a abstinência sexual. Porém, mesmo essas intervenções que discutem e distribuem anticoncepcionais não fazem avanços tão grandes: elas têm melhores resultados do que as intervenções baseadas na abstinência sexual, porque as de abstinência sexual simplesmente não tem nenhum efeito.

De acordo o story editing, uma abordagem que se originou na psicologia social, as intervenções para prevenir a gravidez na adolescência deveriam focar em mudar as narrativas das adolescentes (as histórias que elas contam sobre si mesmas e o mundo) de forma que façam com que elas se envolvam menos em relações sexuais desprotegidas. Essa mudança de narrativa é crucial, pois, segundo pesquisas, adolescentes que se sentem desengajadas da escola e da comunidade e se sentem alienadas e socialmente excluídas estão em maiores condições de risco para a gravidez. Já adolescentes que se sentem participantes de suas comunidades e têm objetivos claros são menos propensas a se colocarem em risco de sexo desprotegido.

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O problema formulado a partir desse diagnóstico foi como mudar a narrativa das adolescentes de “eu não faço parte daqui” (alienação) para “eu sou um membro valioso da minha escola e comunidade” (engajamento). A intervenção comportamental (o nudge ou cutucão) escolhida foi a técnica “do good, be good” (faça o bem, seja bom): esta técnica envolve mudar o comportamento da pessoa primeiro para que depois sua narrativa seja alterada de acordo com essa mudança comportamental. O comportamento das pessoas molda as narrativas pessoais que elas desenvolvem; se elas agem gentilmente para com os outros, elas começam a se ver como tendo uma disposição para generosidade e quanto mais elas se vêem como generosas mais provável é que ajudem os outros novamente – fortalecendo assim suas novas narrativas. Pode-se perceber nesta técnica o princípio persuasivo de coerência de Robert Cialdini, assim como o fator comprometimento do framework MINDSPACE criado pelo Behavioural Insights Team.

Uma ideia que o psicólogo criador da abordagem do story editing, Timothy Wilson propõe no livro Redirect: The Surprising New Science of Psychological Change é que a participação de adolescentes em trabalhos voluntários poderia ser uma forma de reduzir a gravidez na adolescência justamente por mudar essas narrativas pessoais das adolescentes predispostas ao risco, através da aplicação da técnica “do good, be good”.

Três programas nos EUA testaram essa abordagem verificando o efeito do trabalho voluntário sobre a gravidez na adolescência: o Teen Outreach, o Reach for Health Community Youth Service (RFH) e o Quantum Opportunities Program (QOP). Esses três programas envolviam a realização de trabalho voluntário por adolescentes e a comparação com outras condições nas quais as adolescentes não faziam trabalho voluntário. Os resultados demonstraram que em todos estes programas a participação em trabalhos voluntários diminuiu a gravidez na adolescência em um nível considerável.

Ao envolver adolescentes predispostas a gravidez em trabalhos voluntários, pode-se levar a uma mudança benéfica em como elas vem a si mesmas, aumentando o sentimento de que elas são parte valiosa da comunidade, além de desenvolverem aspirações pelo futuro, reduzindo assim as chances de se envolverem em comportamentos de risco, como o sexo desprotegido. São essas pequenas mudanças contextuais que o nudging realiza e que fazem uma grande diferença.

Fonte: Redirect: The Surprising New Science of Psychological Change

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