O lobo que alimentamos e as histórias que contamos para nós mesmos sobre nós mesmos

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Segundo diversos psicólogos, todos nós pegamos diversos pedaços das nossas vidas e as juntamos em uma narrativa coerente e, na medida do possível, significativa.

A “narrativa da identidade” é um conceito criado pelo psicólogo Dan McAdams e se refere a uma história internalizada que criamos sobre nós mesmos, como um mito pessoal. Essa narrativa não é baseada na história completa de cada um de nós, mas sim em “escolhas narrativas” que tomamos. Temos tendência a focar nos eventos mais extraordinários (sejam eles bons ou ruins), pois essas experiências são as que precisamos para encontrar sentido e que nos moldam enquanto pessoas. No entanto, essas narrativas podem variar, tendo efeitos construtivos ou destrutivos para nós mesmos.

As pessoas que são movidas para contribuir para a sociedade e para as futuras gerações tendem a contar “histórias de redenção“, nas quais as coisas mudam de ruins para boas.

O caso oposto é o que McAdams chama de “história de contaminação“, na qual as pessoas interpretam suas vidas como mudanças do bom para o ruim. As pessoas que têm esse tipo de narrativa de identidade costumam ser menos orientadas para contribuir para a sociedade e para as novas gerações, assim como tendem a se sentir mais ansiosas, deprimidas e sentir que suas vidas não têm tanta coerência.

Um terceiro tipo de narrativa de identidade é a de significado. As pessoas que acreditam que suas vidas são significativas tendem a contar histórias definidas pelo crescimento, comunhão e agência. Essas histórias permitem que as pessoas construam identidades positivas e falam sobre o controle que as pessoas têm sobre a própria vida, sobre o amor que recebem, sobre o progresso ao longo da vida e sobre a superação de obstáculos.

Uma das maiores contribuições atuais da psicologia e da psicoterapia é a ideia de que podemos editar nossas próprias histórias. Segundo essa perspectiva, o trabalho de um psicoterapeuta é ajudar o seu cliente a rescrever sua história de uma forma mais positiva, encontrando significado e controle sobre a própria vida. No entanto, não é exclusividade dos psicoterapeutas ajudar as pessoas a rescreverem suas histórias. O design comportamental também pode influenciar o comportamento das pessoas através da edição de histórias.

Em 2011, o psicólogo Timothy Wilson publicou um livro chamado Redirect: The Surprising New Science of Psychological Change, na qual formalizou uma nova abordagem de mudança comportamental chamada Story Editing. De forma resumida, essa abordagem afirma que a forma com que interpretamos o mundo é o determinante do nosso comportamento e, essa interpretação é baseada em narrativas que construímos sobre o mundo social e sobre nós mesmos. Algumas vezes, essas narrativas nos levam para caminhos destrutivos ou pouco produtivos (como no padrão da “história de contaminação” de McAdams), outras vezes, elas nos levam para caminhos mais construtivos (como nas narrativas que McAdams chama de “histórias de redenção” e nas histórias significativas). O Story Editing consiste principalmente de 3 técnicas:

1) Exercício de escrita: esta técnica é indicada quando as pessoas não conseguem formar uma interpretação coerente de um evento importante das suas vidas. Algo aconteceu que não faz sentido e que é doloroso pensar a respeito. Elas tentam não pensar nisso, o que torna menos provável que elas consigam explicar ou chegar a um acordo com o ocorrido. O exercício de escrita é um modo efetivo de fazer as pessoas reinterpretarem tais episódios. Os traumas que causaram estresse prolongado geralmente são aqueles os quais não conseguimos dar sentido; eles são profundamente problemáticos ou preocupantes porque parecem ser sem sentido, atos aleatórios que não se encaixam na nossa visão do mundo como um lugar previsível e seguro. Além disso, nós frequentemente fazemos esforço para banir tais eventos das nossas mentes, ao invés de gastar tempo para analisar tais eventos e encontrar algum significado neles. Isso é o que se propõe fazer o exercício de escrita, nos permitindo dar um passo para trás e reenquadrar o que aconteceu. De fato, as pessoas que se beneficiam mais desse exercício são aquelas que começam escrevendo uma consideração confusa e incoerente do evento traumático, mas, no final, contam uma história coerente que explica o evento e lhe confere sentido. Neste ponto, é menos provável que o evento invada os pensamentos das pessoas, e eles não tenham que fazer esforço tentando suprimí-lo.

2) Story prompting: envolve redirecionar as pessoas ao longo de uma narrativa particular com sinais sutis. Às vezes as pessoas podem precisar de mais do que simplesmente escrever sobre seus problemas, talvez necessitem de um empurrãozinho ou cutucão. Elas podem estar numa linha de narrativa destrutiva, precisando ser redirecionadas para outra mais saudável. um exemplo dessa técnica é rotular crianças como “pessoas generosas”, por exemplo, encorajando-as a internalizar esta visão de si mesmas. Ou atuar de forma mais sutil com adultos, fazendo-os chegar a uma conclusão por eles mesmos.

3) Faça o bem, seja bom (“do good, be good”): esta técnica envolve mudar o comportamento da pessoa primeiro para que depois sua narrativa seja alterada de acordo com essa mudança comportamental.

Uma das maiores vantagens da abordagem do Story Editing é que pequenas edições podem levar a mudanças duradouras, pois as pessoas acabam com uma forma mais desejável de verem a si mesmas que constrói e reforça a si mesmo, de forma construtiva e reforçada, levando a mudanças sustentáveis.

Como exemplo de uma intervenção mais típica do design comportamental do que de psicoterapia, em uma pesquisa de 2012, realizada em um call center de arrecadação de fundos, os psicólogos Adam Grant e Jane Dutton pediram para todos os participantes manterem um diário por quatro dias consecutivos. No grupo controle (condição beneficiada), os pesquisadores pediam aos captadores de fundos que escrevessem sobre a última vez que um colega tinha feito algo por eles e que havia inspirado gratidão neles. No grupo experimental (condição benfeitor), os participantes escreviam sobre uma vez que eles tinham ajudado outras pessoas no trabalho. Como resultado dessa pequena diferença entre os grupos, os participantes do grupo experimental realizaram 30% mais ligações do que antes do experimento, enquanto que os participantes do grupo controle não aumentaram nem diminuíram o número de ligações que realizavam.

Observação:

Tanto na narrativa positiva quanto na negativa, podemos enxergar o arquétipo sistêmico do “sucesso para os bem-sucedidos“, na qual duas alternativas competem por um conjunto limitado de recursos. Se um deles começa a se tornar mais bem sucedido do que o outro, ele tende a obter mais recursos, aumentando assim a probabilidade de sucesso contínuo, justificando a alocação de mais recursos ao mesmo tempo em que “rouba” os recursos e oportunidades da outra alternativa. Como na fábula dos dois lobos (dos índios Cherokee), no qual temos que decidir qual queremos alimentar.

A Fábula dos Dois Lobos

“Certo dia, um jovem índio cherokee chegou perto de seu avô para pedir um conselho. Momentos antes, um de seus amigos havia cometido uma injustiça contra o jovem e, tomado pela raiva, o índio resolveu buscar os sábios conselhos daquele ancião.
O velho índio olhou fundo nos olhos de seu neto e disse:
‘Eu também, meu neto, às vezes, sinto grande ódio daqueles que cometem injustiças sem sentir qualquer arrependimento pelo que fizeram. Mas o ódio corrói quem o sente, e nunca fere o inimigo. É como tomar veneno desejando que o inimigo morra.’
O jovem continuou olhando, surpreso, e o avô continuou:
‘Várias vezes lutei contra esses sentimentos. É como se existissem dois lobos dentro de mim. Um deles é bom e não faz mal. Ele vive em harmonia com todos ao seu redor e não se ofende. Ele só luta quando é preciso fazê-lo, e de maneira reta.’
‘Mas o outro lobo… Este é cheio de raiva. A coisa mais insignificante é capaz de provocar nele um terrível acesso de raiva. Ele briga com todos, o tempo todo, sem nenhum motivo. Sua raiva e ódio são muito grandes, e por isso ele não mede as consequências de seus atos. É uma raiva inútil, pois sua raiva não irá mudar nada. Às vezes, é difícil conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos tentam dominar meu espírito.’
O garoto olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou: ‘E qual deles vence?’
Ao que o avô sorriu e respondeu baixinho: ‘Aquele que eu alimento.'”

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