Esse nosso mundo, tão artificial

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A ação do homem sobre a natureza

Em The Science of The Artificial (1996), um dos mais importantes precursores da economia comportamental e do design thinking, Herbert Simon, disse que enquanto as ciências naturais têm o foco em como as coisas são, o foco do design está em como as coisas deveriam ser. A ciência busca descobrir, descrever. O design busca construir, prescrever.

A ciência trabalha com relações de necessidade na natureza: leis da natureza ou princípios de como as coisas funcionam. O design trabalha com relações de contingência: o mundo artificial (aparentemente arbitrário, porque poderia ser construído de diversas outras formas), feito de acordo com os propósitos humanos.

Simon (1996) caracteriza o artificial do seguinte modo:

  1. As coisas artificiais (os artefatos ou artifícios) são sintetizadas pelos seres humanos.
  2. As coisas artificiais podem imitar a aparência das coisas naturais, embora falte, em relação a um ou diversos aspectos, a realidade destas coisas naturais.
  3. Coisas artificiais podem ser discutidas em termos de funções, objetivos, e adaptação.
  4. Coisas artificiais podem ser discutidas, especialmente quando estão sendo projetadas, em termos normativos, assim como descritivos.

O artificial é o produzido pela mão do homem. Se na natureza encontramos leis, princípios, regras, padrões (relações de necessidade), no artificial encontramos propósitos, desígnios. E encontrando propósitos, encontramos faltas, necessidades e desejos humanos. Como afirma Marshall McLuhan (1964), “a tecnologia do homem é o que ele tem de mais humano”. No artificial, encontramos uma tentativa do homem de superar suas faltas, de aumentar suas capacidades para lidar com a natureza. No artificial, encontramos a natureza humana. McLuhan defende que as tecnologias são extensões do corpo humano. Óculos são extensões dos olhos, sapatos são extensões dos pés, roupas são extensões da pele, e por aí vai.

A ação do ambiente sobre o homem

Porém, é claro que essa relação não é unilateral. Da mesma forma com que o homem constrói seu próprio ambiente, o ambiente também constrói o homem. O mesmo McLuhan afirma: “O homem cria a ferramenta. A ferramenta recria o homem.”

O psicólogo norte americano B.F. Skinner faz uma distinção entre contingências (relações entre as ações das pessoas e seus ambientes, que determinam essas ações) naturais e construídas, e entre consequências intrínsecas e extrínsecas. Enquanto o homem atua diretamente sobre o mundo natural, as consequências de suas ações são produto direto delas; essas consequências são intrínsecas (naturais, mecânicas ou automáticas) e têm sua origem nas próprias ações. Já quando o homem atua no mundo construído (físico ou social), as consequências de suas ações dependem destas ações e de outros eventos; essas consequências são extrínsecas (construídas, arbitrárias ou artificiais) e têm sua origem em outras fontes além da própria ação, sendo mediadas pelas ações de outras pessoas. Um outro conceito que merece destaque é o de quasi-social (Hake e Vulkelich, 1972) que designa um ambiente que parece natural, mas que por experiência prévia, as pessoas sabem que foi produzido por outro indivíduo e, que portanto, possui um propósito.

Explícito na conceituação de Simon e Skinner está uma das principais noções exploradas por diversas disciplinas  exploradas pelo planejamento urbano, arquitetura e design (e como veremos também, pela arquitetura da escolha ou nudging), o ambiente construído: o meio produzido pelos humanos para servir como cenário ou contexto das atividades do próprio ser humano; o espaço projetado pelo homem, e, portanto produto material e cultural do trabalho humano, no qual as pessoas vivem, trabalham, e por fim, o recriam; o meio criado pelos humanos, para os humanos, para ser usado para atividades humanas.  .

  • Embora possamos encarar o ambiente construído como diferente ou oposto da natureza, muito provavelmente devamos encarar o primeiro como sendo parte do último. Isso porque o homem faz parte da natureza e suas construções não poderiam ser outra coisa que naturais também.
  • De outro ponto de vista, creio que podemos chegar a uma relação de real oposição conceitual, quando falamos de ambiente construído x ambiente não construído: um não tem interseção com o outro. O ambiente intocado pelo homem necessariamente não pode ser um ambiente construído e vice-versa.
  • Porém, é claro que essa distinção não é tão rigorosa. Ambientes pelos quais o homem já passou, mas escolheu por não mexer (ambientes preservados, por exemplo), são ambientes não construídos ou ambientes construídos? Na forma com que uso a expressão “ambiente construído”, se sofreu influência do homem (mesmo quando o homem opta por não mudar ou não mexer no ambiente, mas sim preservá-lo quando era intocado ou desconhecido), o ambiente passa a ser construído: foi planejado para se manter como era como não construído (a preservação também é uma forma criativa de construção).

A ação do ambiente direcionado sobre a ação do homem

O artificial ou o construído é o ponto de atuação do arquiteto da escolha. No momento em que entramos em contato com o natural, o tornamos artificial: construímos nosso ambiente de acordo com nossos propósitos. E esse ambiente que nós construímos também molda nosso comportamento, de acordo com nossos propósitos ou não. É melhor que ele nos ajude a superar nossas limitações e nos direcione para onde queremos ir do que o deixemos nos influenciar de forma que possa nos desviar dos nossos caminhos ou negligenciamos esse poderoso meio para o nosso bem-estar. A economia comportamental e psicologia cognitiva as vezes parecem um compêndio de erros humanos: exageramos ou erramos o efeito que determinadas circunstâncias terão em nosso bem-estar (o que os psicólogos Daniel Gilbert e Timothy Wilson chamam de miswanting) cometemos enganos (tomando más decisões devido à diversos vieses cognitivos, inexperiência com determinadas situações, conflitos entre recompensas imediatas e de longo prazo, situações imprevisíveis e incertas, e feedback inexistente ou muito demorado) e nos atrapalhamos na execução dos nosso planos de ação. Entre os nossos valores, propósitos, decisões e ações, existem diversas lacunas as quais é melhor que o ambiente exerça um papel amistoso (como um facilitador) do que hostil (como um obstáculo) sobre nossos comportamentos.

Como dizem Richard Thaler e Cass Sustein no livro Nudge: o empurrão para a escolha certa, querendo ou não, a forma que o contexto – o ambiente construído, o artificial – será organizado terá efeitos sobre as decisões das pessoas: um arquiteto de escolhas tem a responsabilidade de organizar o contexto no qual as pessoas tomam decisões. A proposta de trabalho de nudging (também chamado de arquitetura da escolha) é justamente que esse ambiente construído por nós mesmos seja construído de forma consciente e intencional para gerar os melhores efeitos sobre as nossas decisões e, consequentemente, sobre o nosso bem-estar.

Ah esse admirável mundo novo. Tão artificial e tão promissor, se soubermos direcioná-lo…

 

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