Conscientização: a única solução?

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Esse mês, no Brasil, acontece o Novembro Azul, uma campanha que alerta os homens sobre doenças masculinas com ênfase na prevenção e no diagnóstico precoce do câncer de próstata. Ela é realizada por diversas entidades e dirigida à sociedade por meio de ações de conscientização. Porém, de acordo com as últimas pesquisas da psicologia e economia comportamental, muitas vezes, apenas a consciência, disponibilização de informações ou até mesmo a boa vontade não são suficientes para mudanças comportamentais, como parar de fumar, se preparar para a aposentadoria, fazer mais exercícios, se alimentar de maneira saudável e realizar exames de rotina. É preciso um empurrãozinho a mais…

Diversas pesquisas mostram que a influência do ambiente sobre mudanças comportamentais, hábitos e estilos de vida é muito maior do que conscientemente podemos perceber. Nossa racionalidade limitada ou ecológica (limitações da atenção, do processamento de informações, do autocontrole e da memória) nos faz tomar decisões com base em heurísticas rápidas e frugais, as quais geralmente são eficazes e eficientes, se aproveitando de diversas adaptações evolutivas. Mas esses mesmos atalhos quando aplicados em determinados contextos – diferentes do ambiente evolutivo, cultural e individual em que se formaram e nos quais são bem precisos – se mostram como origem de diversos vieses cognitivos, nos impedindo de tomar decisões que seriam melhor para nós mesmos.

Se considerarmos que a humanidade tem cerca de 200 mil anos, vivemos no estilo de vida sedentário, que começou quando abandonamos o estilo de vida nômade de caçadores e coletores para adotarmos a agricultura e cultivo de animal, há apenas 5% desse tempo. A revolução industrial ocorreu há apenas 0,1% da história da humanidade, e finalmente, a revolução digital tem apenas 0,01% do nosso tempo aqui na Terra. São várias as incompatibilidades entre o nosso ambiente tecnológico e complexo do ambiente no qual evoluímos. Por essa razão, não é de se estranhar que tomemos tantas decisões erradas.

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A consciência certamente representa uma vantagem evolutiva, mas quando o ambiente não acompanha a mesma direção, é muito provável que surja uma lacuna entre nossas boas intenções conscientes e nossas ações.Para um milho virar pipoca, não basta apenas o milho ou o fogo; é preciso os dois. Da mesma forma, para tomarmos as decisões certas, precisamos criar as condições favoráveis para essas decisões. E podemos fazer isso não só através da conscientização, mas usando os insights comportamentais que as ciências nos dão para organizarmos nosso ambiente de forma favorável para nós mesmos através do nudging (também conhecido como arquitetura da escolha).

Levando tudo isso em conta, como poderíamos tornar as condições em que os homens tomam decisões sobre a prevenção e diagnóstico do câncer de próstata favoráveis para eles mesmos, de forma que realizem os exames de rotina? Não, nós não vamos dar o peixe; ao invés disso, vamos dar aula introdutória de como pescar, ensinando o método de nudging que pode ser aplicado a diversos outros problemas comportamentais (se você quiser se aprofundar, aconselho esse link ou entrar em contato conosco). Temos aqui uma “receita” para projetar nudges como alternativa ou complemento às ações de conscientização desenvolvidas pelas entidades engajadas:

1) Definir o problema comportamental: quais problemas comportamentais ou escolhas erradas estão envolvidas em não realizar a prevenção e diagnóstico do câncer de próstata? Por exemplo: realizar exames de rotina. Existem indicadores, métricas, estatísticas e números em gerais sobre o estado atual do câncer de próstata que poderia ter sido prevenido e diagnosticado, caso os homens tomassem as medidas apropriadas (exames de rotina)? Em caso positivo, essa será uma base para comparação e não será necessário pensar em formas de mensurá-los. Os números deverão ser utilizados para estabelecer metas e avaliar os impactos dos nudges. Se não existirem, será preciso pensar em formas de mensurá-los e ferramentas para isso.

2) Diagnosticar o problema comportamental: por que esses exames de rotina (preventivos e diagnósticos do câncer de próstata) não ocorrem? Quais fatores pessoais, emocionais, cognitivos, ambientais e sociais contribuem para que essas decisões erradas ocorram? Por exemplo: educação, autoimagem, estereótipos, insegurança, heurística da representatividade, heurística da disponibilidade, miopia temporal, viés do otimismo, confiança excessiva, viés do status quo, normas sociais etc. Como é o processo para realizar esses exames de rotina? Quais os principais obstáculos nesse processo? Em que ponto as pessoas mais abandonam o processo?

3) Projetar soluções (nudges): de que forma pode-se tratar essas causas, diminuindo as chances de que o problema comportamental ocorra? De que forma pode-se facilitar para que a decisão certa seja tomada? Ou seja, como o ambiente físico e social pode ser organizado, de forma que a causa do problema não ocorra e o comportamento desejado se concretize? Quais insights comportamentais podem ser incorporados para tratar das causas que vimos na etapa anterior? Quais são as soluções projetadas potencialmente mais efetivas, sustentáveis financeiramente, juridicamente e tecnicamente viáveis, além de desejadas pelos usuários finais?

4) Testar: finalmente, como testar se as soluções projetadas na etapa anterior realmente foram bem sucedidas? Grupo piloto x grupo controle (como em estudos randômicos controlados)? Delineamento de reversão? Delineamento de base múltipla? Boas intenções e intervenções baseadas no senso comum são encontradas aos montes. No entanto, se quisermos obter resultados bem-sucedidos, devemos assegurar que nossas ideias realmente resolvam o problema e isso só pode ser feito avaliando empiricamente seus resultados.

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