A técnica do “atire uma moeda, mas não veja o resultado”

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Heurísticas rápidas e frugais

Desde pequenos, ao tomar decisões importantes, somos aconselhados a ouvir a razão, pensar de forma analítica, lógica e fria, pesar os prós e contras de cada fator e desconsiderar nossas emoções, sentimentos, intuições e pressentimentos. Nos últimos tempos, os vieses cognitivos se popularizaram como uma espécie de “pecado original” da humanidade: somos nosso próprio inimigo – cometemos erros previsíveis e sistemáticos, somos previsivelmente irracionais.

 

Essa concepção do homem como Homo Simpson (em comparação ao homo economicus ou homem econômico, um conceito cheio de pressupostos que já se mostraram incorretos) tem algumas implicações implícitas ou explícitas práticas:
  • O homem não poderia ser educado para tomar melhores decisões;
  • Os erros individuais não seriam produtos de como as interações dos elementos do sistema estão organizadas, mas seriam culpa dos seres humanos falíveis e de seus vieses que não poderiam ser mudados (como as ilusões ópticas ou como culpar a vítima);
  • Os problemas sociais poderiam ser atribuídos aos próprios indivíduos e não à estrutura do sistema social do qual o indivíduo faz parte;
  • O ambiente não exerceria grande influência sobre o comportamento (poderíamos apenas fazer pequenas mudanças de custos baixos – já que não teriam um retorno alto – na esperança de que os pobres seres irracionais apresentassem pequenas melhorias em suas decisões, mas que talvez fossem relevantes quando consideradas o efeito acumulativo de melhores decisões por parte da massa);
  • O arquiteto da escolha continuaria exercendo o fardo do homem branco, tentando trazer a razão (principalmente econômica de livre mercado) aos irracionais.
Não é essa a visão de Gerd Gigerenzer, psicólogo alemão que passou a vida pesquisando sobre a racionalidade limitada e o uso de heurísticas e da intuição na tomada de decisão.
gigerenzer

Para Gigerenzer, uma intuição é resultado de uma heurística (regra de atalho) que, por sua vez, é composta por diversas adaptações evolutivas. Uma intuição é uma decisão que surge rapidamente em nossas mentes conscientes, cujas razões fundamentais não estão plenamente acessíveis a essa mesma mente consciente, e que é forte o suficiente para motivar uma ação.

Diferente da concepção do programa de pesquisas de heurísticas e vieses (que deu origem à economia comportamental e até mesmo ao início do nudging ou arquitetura da escolha), para Gigerenzer, as intuições são resultados da nossa história evolutiva, cultural e pessoal, sendo que muitas vezes (segundo os resultados de diversas pesquisas experimentais) tomamos melhores decisões ao ouvir nossas intuições do que ao pesar os prós e contras de forma fria e racional, como pressupõe a lógica formal, a teoria da probabilidade e o pensamento estatístico.

No livro O Poder da Intuição: O inconsciente dita as melhores decisões (2009), Gigerenzer dá um exemplo anedótico (mas vale a pena ir atrás das pesquisas experimentais dele e de seus inúmeros livros) de como Harry Markowitz ganhou o Prêmio Nobel de economia de 1990 por seu trabalho sobre alocação otimizada de ativos: Markowitz demonstrou que existe um portfólio melhor que os outros que maximiza o retorno e minimiza os riscos. Apesar disso, quando fez os próprios investimentos para aposentadoria, Markowitz empregou uma heurística simples, denominada 1/N, a qual diz para alocar o dinheiro em porções iguais em cada 1 de N fundos. Ou seja, ele dividiu os ovos igualmente em diversas cestas.

Emoções como marcadores somáticos

damasio
Da mesma forma, em seus livros O Erro de Descartes (1994) e O Mistério da Consciência (2000), o neurologista português Antonio Damasio enfatiza o papel das emoções na tomada de decisão. Segundo sua hipótese do marcador somático (emoções como sinais fisiológicos), quando as pessoas avaliam o valor de resultados possíveis de suas escolhas, elas dependem de processos emocionais. Ao se deparar com escolhas complexas e conflitantes (como com quem casar, se compramos uma casa), elas não podem decidir usando somente processos cognitivos, pois esses processos seriam sobrecarregados, fazendo com que as pessoas fossem incapazes de chegar a um resultado satisfatório, além de não poderem atribuir valor aos possíveis resultados de suas decisões (o colorido emocional de cada possível resultado). Sem as emoções e com apenas a análise lógica e fria, escolher seria impossível (precisaríamos de conhecimento, tempo e processamento infinito) ou qualquer opção seria tão bom quanto qualquer outra (afinal, não teríamos preferências de resultados). De forma resumida, essas escolhas complexas e em um ambiente incerto não podem ser realizadas com base em uma análise fria e racional; em vez disso, nos saímos melhor ao simular emocionalmente – isto é, um processo automático – como seria escolher entre A e B, com a área pré-frontal ventromedial operando como um norteador

 

Para Damasio, as emoções teriam a mesma função que as intuições têm para Gigerenzer: nos permitem tomar decisões de forma rápida e levando nossos interesses em consideração (como parte dos mecanismos de regulação biológica) em ambientes incertos, mesmo com a atenção, memória e capacidade de processamento limitados. Diferente de autores que veem essas limitações como defeitos inerentes ao ser humano, Damasio deixa claro que a emoção e a razão não são autoexcludentes, sendo que, da mesma forma que a mente depende do corpo, a razão depende da emoção. Um exemplo disso, são pacientes que sofrem danos neurológicos no lobo pré-frontal, que passam  demonstrar déficits na capacidade de sentir emoções e no controle sobre os comportamentos que normalmente são considerados como produtos da tomada de decisão “racional”. Esses pacientes, embora mantenham as demais funções intelectuais intactas, tomam decisões que os prejudicam imensamente nas esferas mais importantes da vida, como na pessoal e social.

 

Emoções e intuições como lemes

Daniel_GolemanNo livro Foco: a atenção e seu papel fundamental para o sucesso (2014), o psicólogo Daniel Goleman (o mesmo autor de Inteligência Emocional, 1996) fala sobre essas intuições e seus sinais manifestados no corpo (os marcadores somáticos de Damasio) funcionando como um leme interno nos guiando para qual direção devemos ir. Para Goleman, a autoconsciência nos permitiria ouvir essa voz interior, as reações fisiológicas sutis (e às vezes, não tão sutis) que refletem o produto da nossa experiência evolutiva, cultural e individual e que são relevantes para a decisão que temos em mãos. Essa autoconsciência representa um foco essencial que nos alinha a emoções e intuições, podendo nos ajudar a guiar nosso caminho pela vida.

Porém, muitas vezes não temos consciência dessas intuições, embora estejam ocorrendo o tempo todo. Isso talvez ocorra pela intuição e as emoções serem desvalorizadas em nossa cultura, sendo consideradas aspectos animalescos, prejudiciais às decisões – e, de fato, geralmente são, quando estão desalinhadas com a tarefa que a pessoa tem em mãos para realizar. Como resultado, diversas vezes ignoramos esse leme interno, e ficamos em um estado conhecido como paralisia por análise: esperamos mais dados, mais informações para decidir, na esperança de que elas nos forneçam ajuda ou de que tomem a decisão por nós.

Realmente, muitas das intervenções conhecidas da arquitetura da escolha consistem em desfazer os vieses causados pelas emoções e intuições ou contrapor um viés por outro viés com o objetivo de fazer com que esses aspectos não influenciem tanto a tomada de decisão, tornando o indivíduo mais “racional” (como naquela antiga tradição de contar até 10 antes de tomar uma atitude quando ficamos com raiva). Porém, como pretendo falar em um post futuro, delimitar o nudging a esse aspecto de neutralização dos vieses do Sistema 1 (emoções e intuições) é reflexo de uma concepção ingênua da natureza humana, como se o trabalho do arquiteto da escolha fosse o de diminuir a porção instintiva, intuitiva, emocional (e mesmo humana) do homem, com uma aspiração de torná-lo um otimizador; uma espécie de autômato domesticado.

Sabendo da importância da intuição na tomada de decisão e da predominância dela em relação à análise fria e crua em determinadas condições, o nudging pode e deve incentivar a tomada de decisões intuitivas, quando estas levam a melhores resultados, principalmente em ambientes de incerteza e para previsão – quando comparada a ambientes de riscos conhecidos e para retrospectiva. De fato, a arquitetura da escolha herdou algumas características da filosofia do design centrado no usuário (posteriormente chamado de design centrado no ser humano ou, simplesmente, design thinking) que valoriza a construção de produtos e serviços de forma mais intuitiva possível, como smartphones com interface touch, nas quais até um bebê consegue interagir facilmente. Isto é, produtos e serviços que explorem a natureza humana de modo adequado, ao invés de tentar desumanizar o homem.

Como encontrar o seu norte

No livro Risk Savvy: How to Make Good Decisions (2014, ainda sem tradução no Brasil), Gigerenzer dá uma dica de como tomar melhores decisões com base na intuição. Ele chama esse procedimento de “atire uma moeda, mas não veja o resultado”:

Se você está tendo dificuldades de ouvir a sua voz interior (sua intuição), há um método muito rápido: basta jogar uma moeda para cima. Enquanto ela está girando, você provavelmente vai sentir para qual lado ela não deveria cair pra cima. Essa é a sua voz interior. Dessa forma, você não precisará fazer qualquer cálculo complicado para ouvir sua intuição, nem se dar ao trabalho de ver qual lado da moeda caiu para cima.

Essa técnica funciona por algumas razões, incluindo o efeito “menos é mais”. Quando encontramos problemas complexos, tendemos a buscar por soluções complexas. E, quando isso não funciona, buscamos soluções ainda mais complexas. Em um mundo incerto, isso pode ser considerado um grande erro: problemas complexos não requerem sempre soluções complexas; muitas vezes, soluções simples (como as fornecidas pela intuição) funcionam melhor. Para previsões (quando há incerteza), menos informação realmente traz mais acurácia e precisão, enquanto que para realizar retrospectivas (quando os riscos já são conhecidos), mais informação traz mais acurácia e precisão. O efeito “menos é mais”afirma, de modo aparentemente paradoxal, que ao usar menos informação, menos computação ou menos tempo podemos ser levados a melhores julgamentos e decisões. É importante ressaltar que isso não implica que nenhuma informação é melhor do que alguma informação, mas que existe um limite no qual a aquisição e processamento de mais informações é prejudicial à tomada de decisão.
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