A arquitetura da escolha e a água

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O escritor e jornalista norte-americano David Foster Wallace, certa vez proferiu um discurso de formatura para os alunos da Kenyon College. O discurso inteiro é inspirador (vídeo abaixo), mas para os objetivos desse post, transcrevo somente o início do mesmo:

“Estes dois jovens peixes estão nadando por aí, e por acaso encontram um peixe mais velho nadando na direção contrária, que acena para eles e diz ‘Bom dia, meninos, como está a água?’ E os dois jovens peixes continuam nadando por um tempo, até que eventualmente um deles olha para o outro e fala: ‘O que diabos é água?’”

Na maior parte do tempo, não temos consciência de quais fatores influenciam nossas decisões ou sob qual arquitetura da escolha estamos expostos. Não enxergamos a água. O que está presente o tempo todo se torna invisível com o tempo, fundo para outras figuras. Ou nem mesmo se torna visível, uma vez que ter consciência dos fatores que nos influenciam não é necessário para ser influenciados por eles. Como o psicólogo norte-americano Skinner afirma:

“todo comportamento, humano ou não-humano, é inconsciente; ele se torna ‘consciente’ quando ambientes verbais estabelecem as contingências necessárias para a auto-observação”

O que também significa que o autoconhecimento – o conhecimento mais íntimo e privado que podemos ter – é originado socialmente.

Podemos nos tornar conscientes de quais fatores influenciam nossas decisões e ações (enxergar a água), ou até mesmo construir nosso ambiente de forma com que ele exerça a influência desejada sobre nós (a proposta da arquitetura da escolha: melhorar a qualidade da água de forma que possamos nadar melhor). Mas não podemos escolher que nossas ações e decisões não sejam influenciadas; nossas decisões não são tomadas em um vácuo. Embora sejamos tentados a pensar intuitivamente que podemos agir (com o livre-arbítrio) assim o tempo todo…

De fato, na psicologia social temos os denominados efeitos de terceira e de primeira pessoa, que falam sobre nossas avaliações dos efeitos da persuasão sobre os outros quando comparados sobre nós mesmos.

O efeito de terceira pessoa afirma que quando expostas a mensagens persuasivas e conteúdos midiáticos avaliados como negativos, nocivos ou socialmente indesejáveis, as pessoas tendem a subestimar os efeitos sobre si e superestimar os efeitos sobre os outros (“ah isso funciona para os outros, não em mim”). Já o efeito de primeira pessoa afirma que por outro lado, frente a mensagens avaliadas como positivas, benéficas e/ou socialmente desejáveis, os indivíduos tendem a estimar um grande efeito sobre si e um efeito menor sobre os outros, caracterizando o efeito inverso de terceira pessoa (“ah eu me identifico com isso, já os outros…”). Quando vemos a água como suja, achamos que ela influencia mais os outros do que a nós mesmos. Quando vemos a água como limpa, achamos que ela influencia mais a nós mesmos do que aos outros.

Mas o fato é que a água sempre está lá. De tão pervasiva ou ubíqua, podemos não enxergá-la, mas não temos fugir dela. Não temos como não sofrer os efeitos da arquitetura da escolha. O que temos é a escolha de como ela será construída, de forma a influenciar nossas decisões para melhor, nos trazendo transformações sociais, saúde, prosperidade, produtividade e bem-estar. 

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